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[Cadastrar]União entre empresas, universidades e governo é saída para apagão de talentos
Uma parceria tripartite entre empresas, universidades e governo é a melhor solução para enfrentar o grande gap de profissionais qualificados que já se observa no Brasil e que tende a se acentuar nos próximos anos. Quem propõe é Luiz Edmundo Rosa, diretor de Conhecimento e Educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) e vice-presidente de Desenvolvimento Humano & Sustentabilidade da Anima Educação.
Após participar nesta quinta-feira (08/04) do comitê estratégico de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo, em entrevista ao site da Amcham, ele detalhou as deficiências educacionais do País, um dos maiores entraves à competitividade nacional.
O tema estará novamente em pauta em série de eventos que a Amcham prepara para este primeiro semestre. A ideia é debater aspectos-chave para a competitividade brasileira que precisam estar entre as prioridades dos candidatos às eleições majoritárias deste ano.
Amcham: Usa-se muito hoje o termo apagão de talentos, mas a escassez de mão-de-obra qualificada no Brasil é uma dificuldade de que muitos setores reclamam há longa data. O gapentre o que as empresas demandam e o que o mercado de trabalho oferece está se acentuando?
Luiz Edmundo Rosa: Esse gap está se tornando crônico, passando de uma questão setorial para uma questão nacional. O Brasil é hoje a 10ª economia do mundo e deve se tornar a 5ª entre 2013 e 2016. Vários vetores impulsionam o País nesse contexto de crescimento, como o reconhecimento de marcas brasileiras no exterior e a descoberta do pré-sal, que promete gerar 700 mil novos empregos para pessoas bem qualificadas – projeções, por sinal, subestimadas, pois as vagas se estenderão por toda a cadeia produtiva. Já hoje, antes que esses efeitos se produzam, vivemos um apagão de talentos.
Amcham: O que mais preocupa nesse quadro?
Luiz Edmundo Rosa: Apesar estarmos a caminho de nos tornar a 5ª economia mundial, registramos um retrocesso no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Em 2009, o Brasil caiu cinco colocações nesse ranking, atingindo a 75ª posição. Na composição do IDH, o elemento preponderante, porque atua sobre os demais e pode transformá-los, é justamente a educação. Estamos mal no índice que pode contaminar os demais, o que significa que nossa perspectiva é bastante limitada. Outro fator que deve ser lembrado, também na contramão dessa evolução no ranking das economias mundiais, é a competitividade. No relatório do Fórum Econômico Mundial divulgado em fevereiro de 2010, aparecemos bem atrás, no 56º lugar. Competitividade abrange vários índices, como burocracia e peso da máquina governamental, mas aqui também a educação tem um papel muito importante em si e pelo potencial de transformar os outros. O problema é que o Brasil deixou a educação para depois, tentou fazer primeiro a revolução econômica e social e agora encontra um enorme gargalo.
Amcham: Como o País está posicionado nessa área em relação aos demais membros do Bric (bloco que reúne também Rússia, Índia e China)?
Luiz Edmundo Rosa: O Brasil está formando um número de engenheiros ínfimo perto dos outros países. São 40 mil (dado de 2007), perto de 190 mil da Rússia, país que tem uma população 35% menor do que a nossa. Isso sem falar na Índia, com 220 mil novos engenheiros ao ano, e na China, com 650 mil. Esses países utilizam um tipo de formação mais pragmático, que o Brasil tem, mas ao qual não tem dado a devida importância, que é a formação de tecnolólogos. Esses cursos colocam o indivíduo mais prontamente no mercado, retirando do programa aquilo que não está relacionado ao mundo empresarial, e também permitem acesso à parte mais acadêmica em uma segunda etapa se o estudante desejar. Essa pouca prioridade à engenharia resulta que menos de 4% dos universitários que se formam no Brasil sejam engenheiros. A consequência disso se observa no número de patentes que o País obtém: 397 em 2008 frente a 28.085 da Rússia, 2.808 da Índia e 5.206 de China. É claro que outros fatores contribuem para o registro de patentes, mas sem dúvida a formação de profissionais é o mais relevante. Entre os Brics, o Brasil está bastante atrás no que se refere às possibilidades de assumir o valor de seu potencial. O gargalo é a educação, que se traduz em competitividade.
Amcham: Como o sr. dimensionaria o tamanho do desafio que o Brasil tem pela frente em termos educacionais?
Luiz Edmundo Rosa: Cerca de 70% da população brasileira são analfabetos funcionais, um número muito elevado que significa que muitas pessoas formadas não têm a capacidade de entender o que estão lendo, analisar fatos, integrar informações. Além disso, 80% da população não sabem calcular uma porcentagem, o que é uma limitação muito grande. Temos uma alta taxa de repetência e abandono em todo o ensino. Veja o funil que se forma (dados de 2008): são 32 milhões de estudantes no ensino fundamental, número que cai para 8 milhões matriculados no ensino médio e, deles, apenas 2,1 milhões se formam . Em seguida, 300 mil entram em universidades públicas e 1,2 milhão em privadas, sendo 120 mil com bolsa do ProUni. Todos os anos, sobram 580 mil daqueles que se formaram no ensino médio. Apenas 13% dos jovens brasileiros que poderiam estar na universidade de fato estão, e 40% deles não concluem o curso.
Amcham: Universidade pública ou privada, onde o País precisa focar mais neste momento?
Luiz Edmundo Rosa: O custo de uma vaga na universidade pública é cinco vezes maior do que na particular. Temos muita ociosidade nas faculdades particulares que deveriam abrir oportunidades para aquelas mais de 500 mil pessoas que poderiam estar estudando se tivessem apoio, financiamento. É muito mais barato investir na universidade privada hoje e aproveitar as vagas que ela tem do que criar mais universidades públicas. Isso sem falar no fato de que as universidades públicas têm maior viés científico, menos voltado para o mercado. Outro ponto preocupante é o crescimento muito pequeno das pessoas matriculadas nas universidades. Nas privadas, que são a maioria, o aumento entre 2007 e 2008 foi de apenas 1,3%. Significa que em três ou quatro anos estaremos liberando um número de universitários, mantidos os 40% de desistências, insuficiente para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e ainda mais para alguns setores que se desenvolvem acima da média nacional. A desproporcionalidade está aumentando a olhos vistos.
Amcham: Que posicionamento as companhias têm assumido nesse contexto?
Luiz Edmundo Rosa: Há empresas que importam funcionários de outros países, mas não defendo essa atitude de predador, extrativista. Diante da falta de qualidade de muitos cursos, com conteúdos obsoletos e sem foco, totalmente fora da realidade do mercado de trabalho, a maioria das companhias reage sozinha, com soluções próprias. Em vez de a empresa influenciar para ter um curso de maior qualidade, assegurar que o currículo atenda sua demanda, apoiar a faculdade para que se torne mais contributiva, simplesmente nem se comunica com ela e cria sua própria universidade corporativa. Mas essa universidade corporativa não conseguirá formar um engenheiro. Ela tapará buracos, muitas vezes suprirá a formação que o sistema educacional não deu, mas sem melhorar a base. Com essa postura, a empresa se conforma em receber gente com péssima qualidade, assume que o problema é seu e a um custo alto.
Amcham: E a partir de atitudes isoladas não se forma massa crítica...
Luiz Edmundo Rosa: Exato, e esse é um ponto em que a Amcham tem um papel muito relevante a desempenhar, mobilizando companhias e promovendo advocacy (relações governamentais). É a única maneira de fazer frente ao tamanho do desafio. Esses números falam por si e ignorá-los serianonsense.
Amcham: O caminho então seria uma parceria mais consistente entre empresas e universidades?
Luiz Edmundo Rosa: Na verdade, a solução deve ser tripartite, envolvendo governo, empresa e universidade. É dessa forma que podemos encontrar as soluções de que precisamos, mas não é assim que estamos atuando hoje. O MEC (Ministério da Educação) é uma instituição separada, diferente do Ministério do Trabalho, que adotou uma administração tripartite, unindo governo, trabalhadores e empresas para que seu Programa da Alimentação do Trabalhador chegasse a ser reconhecido como um dos mais modernos do mundo. Na educação, não temos algo equivalente. Se o MEC aplicasse esse formato, conseguiríamos levar a educação muito além. Penso que as companhias deveriam reivindicar sua presença no MEC, onde deveriam estar representadas também as instituições educacionais. O governo não pode se colocar na postura de dono de algo que é de todos. Esse é um bem comum, que não está sendo bem gerido e cuja administração tem de passar às mãos dos stakeholders. O Brasil precisa de um Plano Marshall (referência à estratégia adotada pelos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial) para a educação porque o gap (entre o que se tem e o que se precisa em termos de mão-de-obra qualificada) é monstruoso. Esse plano pressupõe mudar o jeito de atuar, e quem dará o mote do novo modelo são as empresas.
Amcham: Qual é seu recado final às companhias?
Luiz Edmundo Rosa: Se trabalharem com a universidade e forem um pólo difusor da educação para toda a sua cadeia produtiva, poderão superar esse desafio. É preciso atuar em conjunto, buscar soluções inusitadas, “fora da caixa”, como consórcios que permitam acelerar esse processo. Trabalhando dessa forma combinada, as empresas pequenas também terão um papel importante no processo. O consórcio é a solução, assim como a cooperativa o é para a produção. À medida que se mobiliza, assume que pode mudar, a companhia tem uma atitude transformadora, de influência. Essa é a proposta.
Entrevista concedida à editora Giovanna Carnio
AGP Consultoria Marcas e Patentes
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